domingo, 4 de maio de 2008

Será que teremos todos que usar coletes salva vidas na praia?


O tema de capa da última edição da revista Época – “Colesterol: o que o médico não lhe diz” ajudar-me-á a trocar algumas idéias sobre esta matéria com os meus leitores.

NNT – número necessário de pessoas a tratar para que uma sinta o benefício do remédio em causa. E aí vem o primeiro resultado que todos nós devemos saber: no exemplo usado na revista, o remédio em causa tem um NNT = 100, o que significa que para cada paciente usufruir do beneficio do remédio para reduzir o colesterol, outros 99 usarão o mesmo remédio, sem qualquer resultado positivo e ainda com a alta probabilidade de sofrer os efeitos colaterais que aquele acaba por ter. Esse número é altíssimo, comparando por exemplo, ainda segundo a revista Época, com um NNT =3 da aspirina para evitar um infarto em hipertensos ou um NNT = 1 da dexametasona para evitar a morte por meningite. Se esta é a realidade, confirmada pelos próprios laboratórios e pelos médicos que conhecem o verdadeiro significado do NNT, porque o cidadão comum, não imagina que a grande maioria das pessoas que está tomando remédios para baixar colesterol, está pura e simplesmente deitando dinheiro fora e negligenciando, por exemplo, a importância de melhorar o seu próprio estilo de vida, porque se sente seguro com o remédio que toma?

Para além da questão do lucro bilionário (sou totalmente favorável a que os laboratórios farmacêuticos, usufruam de lucros compatíveis com o respectivo grau de risco e investimento, desde que atuem com base em valores éticos, onde, entre outros pontos, a defesa dos interesses do cliente final (paciente), seja um pilar intocável) e de outros interesses escusos de alguns médicos (tenho a certeza que muitos dos médicos, procuram em primeiro lugar o bem estar dos seus pacientes), existe um vicio de raciocínio que tem de ser combatido.

No site www.epoca.com.br , terão acesso a um vídeo que apresenta duas entrevistas a médicos sobre esta questão e a certa altura, o Dr. Raúl Santos Filho do Incor afirma categoricamente: “(...) o efeito da dieta é um efeito limitado em relação ao potencial que as estatinas tem para baixar o colesterol.” E mais na frente, quando questionado se há muita gente tomando estatina sem necessidade, responde que “(...) a nossa maior preocupação não deveria ser com aquele que tem tomado sem precisar, mas aquele que precisa que não está tratando (...)”.

É óbvio que para os casos críticos, é necessário entrar de imediato com as estatinas, mas sabendo que a entrevista será vista por milhares de pessoas, minimizar a importância de uma dieta saudável e deixar transparecer que não considera problemático que a grande maioria dos pacientes esteja tomando e pagando por algo que apenas lhe trás efeitos secundários nefastos, é passar a mensagem de que não vale a pena fazer uma reeducação do estilo de vida (afinal os remédios são muito mais poderosos!) ao mesmo tempo que, implicitamente, nos faz passar por cidadãos sem capacidade de discernir o que é certo e o que é errado e por isso nos devemos subjugar à opinião do nosso médico que recomendar o uso das estatinas, sem questionarmos seja o que for.

Acreditando nas palavras do Dr. Raúl Santos Filhos e fazendo um paralelo com algo que quase todos os brasileiros gostam de fazer, se ele fosse responsável pela segurança nas nossas praias, com certeza defenderia o principio do uso obrigatório de coletes salva-vidas por todos os que entram na praia, porque o problema não seria aqueles que teriam que usar o colete sem qualquer necessidade de fazê-lo, mas aqueles que acabarão por morrer por não terem um.(...)

“É quase impossível encontrar alguém que acredite firmemente nas estatinas e não tenha nenhum vínculo com a indústria farmacêutica”, afirma Rodney A. Hayward, professor da Universidade de Michigan. Houve uma grande controvérsia quando foram divulgadas as metas de colesterol de 2004. Oito dos nove especialistas tinham vínculos com a indústria. (...) “É fundamental que a sociedade aprenda o que é o NNT e passe a cobrar essa informação dos médicos e dos fabricantes.”, disse a ÉPOCA Nortin M. Hadler, professor de Medicina da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. (...) António Chagas, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), “(...) acredita que a divulgação do NNT pode fazer o público achar que não vale a pena tomar os remédios.” Não é o que pretende esta reportagem.

A intenção de ÉPOCA é contribuir para que cada indivíduo possa ter consciência dos benefícios, riscos e custos dos tratamentos. Antes de entrar na farmácia, as pessoas precisam saber que boa parte delas vai pagar R$ 80 por mês, estar sujeita a efeitos colaterais e ter uma chance remota de benefício.

Muitos médicos têm pouco conhecimento sobre NNT, risco relativo e outros indicadores do custo–benefício dos tratamentos. Tornam-se presas fáceis da propaganda incisiva da indústria farmacêutica. Antes de receitar estatinas, deveriam apostar nas mudanças de estilo de vida.

Nem todos os pacientes conseguem concretizá-las. Mas precisam ter a chance de escolha. Em geral, quem começa a tomar estatina fica com ela a vida inteira. O custo de R$ 80 por mês multiplicado por anos a fio se torna absurdo quando se considera que poucos são os beneficiados. Por outro lado, o preço de não tomar o remédio pode ser a morte, ainda que isso ocorra com a minoria.

A decisão é difícil e envolve uma avaliação minuciosa feita por um cardiologista preparado. E, cada vez mais, com a participação de pacientes menos passivos e bem informados. Esse é o resultado do trabalho de provocadores incansáveis como Wanderley Bernardo (cirurgião torácico que trocou o bisturi pelo laptop. Nos últimos seis anos, se dedica a avaliar o custo–benefício de medicamentos como as estatinas. “A população precisa ser informada sobre os limites dos remédios). “

Na próxima consulta pergunte ao seu médico a opinião dele sobre esta questão e diga-lhe que gostaria de conhecer o seu nível de homocisteína (vide meu artigo de 17 de abril)

Um comentário:

Isabel disse...

Muito interessante, João.
Desconhecia. Pessoalmente, quase sempre recuso medicamentos que por alguma razão me tornarão dependente deles. Eis porque tenho recusado tomar medicamentos para o meu colesterol, antes faço alguns esforços (talvez não os suficientes ainda) para diminuir os valores de forma natural.Uma das razões da minha opção deve-se ao descrédito pela classe médica que usa e abusa dos medicamentos, quando existem tantas alternativas, entre as quais e como o João sempre refere, a mudança para hábitos saudáveis.

Toda a mudança requer persistência e tolerância. Eu estou no bom caminho.

Um abraço João