domingo, 26 de outubro de 2008

Situações totalmente inaceitáveis nas Escolas!

São totalmente inaceitáveis as situações descritas pelo Walcyr Carrasco, no seu artigo “Mais amor, menos descaso”, na revista Veja.

“Alice, minha sobrinha, tem 5 anos. Recentemente descobrimos que sofre de diabetes. Foi um choque, pois é o primeiro caso da família. Meu irmão e minha cunhada amam demais a filha e seu irmão. Aprenderam os difíceis cálculos para administrar a dose correta de insulina a cada refeição. Alice é corajosa. Coopera e nem reclama das muitas espetadas diárias. Ela mora em Campinas, mas há alguns anos freqüenta com o irmão uma escola particular em Paulínia, cidade próxima. Inicialmente, a professora e a coordenadora se mostraram acessíveis. Aprenderam a administrar a insulina. E meu irmão respirou aliviado porque o diabetes é uma doença que exige disciplina no tratamento.

Há algumas semanas ele e minha cunhada foram chamados pela escola. A coordenadora sacou um parecer de um advogado segundo o qual a escola não tem obrigação de ministrar medicamentos à garota. Avisaram que não dariam mais insulina a Alice. Meu irmão caiu no choro. Mais tarde, reuniu-se com a dona do colégio, que buscou um paliativo: um funcionário que estuda enfermagem. Mas às vezes o rapaz falta!

A relação de muitas escolas com crianças doentes é complicadíssima. Beira o escândalo. Em um colégio caríssimo de Campinas uma garota quase entrou em coma com crise de hipoglicemia porque ninguém quis lhe dar uma colher de açúcar. É política do estabelecimento não tocar nos alunos. Pior ainda: outros simplesmente recusam a matrícula de crianças diabéticas. Ou tiram as que já estão lá. (Aliás, minha impressão foi que a dona da escola de minha sobrinha está pavimentando o caminho para não aceitá-la no ano que vem. Senão, por que teria permitido a entrega da carta do advogado pela coordenadora, antes de procurar uma solução menos cruel?)

Se um aluno cair com convulsões, ninguém fará nada porque a lei não obriga? Uma doença crônica pode provocar seqüelas para a vida toda. Há casos de mães que largam o emprego para cuidar dos filhos na escola. Justamente quando são necessários remédios caros a pessoa é obrigada a cortar o orçamento doméstico?

Certa vez, em uma palestra, presenciei um caso terrível em uma escola de primeira linha. Uma aluna sofrera um acidente e tornou-se paraplégica. Existiam salas de aula no térreo, mas a direção manteve sua classe no segundo andar, sem elevador. Os amigos revezavam-se para carregá-la escada acima. Até que a garota se transferiu.

Sinceramente, não me importa o que diz a lei, embora, até onde eu sei, todo o nosso código jurídico proíbe a exclusão. A atitude é chocante, ainda mais vinda de educadores. Diante da enfermidade, seria possível estimular todos os colegas a refletir sobre solidariedade. Os órgãos responsáveis pela educação deveriam olhar para esses casos. Talvez obrigar as escolas a ter ambulatórios, porque sempre haverá uma criança doente. Os pais deveriam se unir. Mas, com medo de represálias sobre os filhos, tentam botar panos quentes. Acredito no contrário. Será muito pior se minha sobrinha for vista como um problema. Talvez até receba os remédios, mas com má vontade. Ela se sentiria rejeitada, e isso afeta profundamente uma criança. Alice é guerreira. Melhor que saiba de seu problema e de seu direito a uma vida saudável. E que há gente a seu lado: os pais que a amam e eu, que sou seu tio. Sinto uma imensa dor, vontade de chorar. Não só pela Alice. Mas pelas centenas, milhares de crianças enfermas ou deficientes cujos professores e coordenadores deveriam estar oferecendo amor, e não descaso.”

Cada vez existem mais crianças com problemas de saúde, por causa do Estilo de Vida que levam (bem como os respectivos pais) e soluções tem de ser encontradas para inverter esta tendência (eu já tenho apresentado algumas e estou disposto a participar em projetos neste sentido). Mas enquanto houver uma criança que necessite de uma atenção especial na escola, é desumano agir ou permitir atitudes daquelas.Voltando à escola da sobrinha do Walcyr Carrasco, o que a coordenadora e a dona farão no caso de algo semelhante acontecer com um de seus filhos? E se todos os pais tirassem os filhos da escola, por acreditarem que eles estarão crescendo num ambiente não seguro, egoísta, insensato, ...., no qual é impossível existir um verdadeiro amor por eles, já que são considerados meros números pagantes no final de cada mês? Neste cenário, será que a dona e a coordenadora iriam de novo chamar um advogado ou optariam por criar procedimentos sensatos nesta área?

Qualidade de Vida, também é agir com firmeza e em bloco nestas situações e deixarmos de ser covardes com receio disto ou daquilo. Amanhã, cada um de nós, poderá vir a necessitar da solidariedade que agora faltou à Alice e aos pais dela.

Abraços saudáveis (com um carinho especial para a Alice)

4 comentários:

Élio disse...

Olá João, bom dia!

É fácil falar em tese, se estamos fora da questão. Acho que leis só atrapalham, criando mais problemas que soluções. É fácil obrigar que as escolas tenham mais custos e socializá-los. Por outro lado, vimos que as escolas procuram livrar-se de potenciais problemas, para não serem sesponsabilizadas criminalmente.
Acho que as soluções passam por negociações entre as partes são sempre as melhores (veja o Globo Rural de ontem), pois sempre resultam em soluções ganha-ganha.
Acho, também, que os problemas são oportunidades de avanço e ganho para as pessoas criativas e empreendedoras.
Abraços.
Élio J. B. Camargo

João Marques disse...

Caro Élio,

Obrigado pelo seu comentário.
Eu compreendo a preocupação legítima das escolas com processos decorrentes de eventuais problemas com algum procedimento nesta área, e defendo, como muito bem você escreveu, que "as soluções [que] passam por negociações entre as partes são sempre as melhores".

Quando eu escrevi no penúltimo parágrafo "optariam por criar procedimentos sensatos nesta área?", tinha em mente exatamente esse diálogo maduro, onde os respectivos pais e a Escola colocam em cima da mesa, as variáveis em causa e procuram soluções que deixem as ambas as partes confortáveis, respeitando o nível de prioridade daquelas (variáveis).
O que não é aceitável é os pais da Alice serem chamados para lhes entregarem uma carta do advogado informando que a a Escola não tem a obrigação de ministrar a insulina à Alice e por isso mesmo iriam suspender esse procedimento.

Foi maior o erro quanto à FORMA do que ao conteúdo propriamente dito, onde aquela diminuiu/eliminou à partida a possibilidade de se encontrar uma solução digna, principalmente para a Alice.

Abraços saudáveis

Anônimo disse...

Alõ João.
Eu como sou um tanto quanto"realista",tenho a certeza que estamos empurrando PROBLEMAS PARTICULARES para órgãos do govêrno.
Assim é com vales alimentação,transporte,educação,CUIDADOS MÉDICO,PSICOLÓGICOS,ETC.
Estamos tranformando escolas em filiais hospitalares e de restaurantes!!!!!.
Não existe equação que equilibre tudo isto com a necessidade MAIOR que é a da educação.
Lamento,mas esta socialização não pode ser implantada sem o risco,ou certeza,de afundarmos cada vez mais o nível educacional.
A origem está na TER FILHOS,onde se supõe o casal assume responsabilidades,que hoje estão procurando transferir.
abraços

mario sergio

João Marques disse...

Prezado Mário Sérgio,

Muito obrigado pelo seu comentário. Entendo a sua posição e partilho que os primeiros responsáveis têm que ser os pais.
No entanto acrescento o seguinte:

a)a situação totalmente inaceitável a que me referi, foi a forma como a Escola lidou com o problema.

b) o cerne da questão é encontrar uma solução que respeite a Vida e os direitos da Alice (aqui representando tantas outras crianças), com a solidariedade das várias partes envolvidas.

c)uma vez que qualquer criança tem o direito de se sentir mais uma e não alguém diferente e vai passar diariamente algumas horas na Escola, é fundamental que se definam e implementem processos que resolvam este tipo de situações.

d) agora se a solução mais acertada envolver custos que devam ser de responsabilidade dos pais, que estes financiem ou co-financiem (até porque a mesma solução poderá servir para outras crianças).

e) e por último, que as Escolas, sejam um lugar onde as crianças reforcem os exemplos que também já deverão vir de casa, sobre hábitos saudáveis, para minimizar/eliminar a probabilidade de virem a contrair um grande número de doenças perfeitamente evitáveis com um Estilo de Vida saudável.

Esperando ter esclarecido um pouco melhor esta questão, conto com mais participações suas para enriquecer o conteúdo do Blog

Abraços saudáveis,